Há uma certa hora do Inverno da alma em que tudo parece parar — a respiração fica rasa, o horizonte some, e o mundo se recolhe num silêncio espesso. É quando o desalento pousa, suave e pesado como neve sobre os galhos, e a vontade de caminhar parece esvaír-se no próprio ar que falta. Nesses instantes de frio interior, somos convocados a recordar: a vida não é acidente. Nem o sofrimento é um castigo cego. Cada obstáculo é uma espécie de porta estreita, fechada a ferro, que guarda dentro de si não a rejeição, mas a revelação — uma chance única de amadurecer, de reparar o invisível, de descobrir paisagens internas que só nascem depois da tempestade.
Mas atenção: há ventos, às vezes, que sopram contra. Há vozes interiores e ecos alheios que insistem em pintar a existência como um fardo sem réstia de sentido, como se o amor, a fé e a descoberta fossem miragens de uma mente cansada. Essas forças não vêm em nome da verdade; são sombras que se alimentam da escuridão alheia. Prolongam a dor com promessas de fuga, iludem com a ideia de que a paz é um lugar longe daqui, um abrigo além da vida antes da hora. Que engano profundo. A dor não se dissolve com a fuga — apenas se transfigura, emigra para outra dimensão do ser, e muitas vezes ganha raízes mais fundas e mais amargas.
A vida terrena é, sim, uma escola exigente. De tijolos ásperos e lições às vezes duras. Mas é no contacto directo com a aspereza que o espírito se talha, se polui e depois se purifica, como ouro no crisol. É na resistência que nasce a resiliência; é no enfrentar que descobrimos asas que não sabíamos ter dobradas nas costas. Allan Kardec, com a lucidez de quem enxergava além das aparências, lembra-nos: a descrença no futuro e o olhar puramente material sobre a existência são como ácidos que corroem a coragem. A fé, aqui, não é um refúgio para os frágeis — é um campo de força para os que ousam seguir.
"A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral." (Kardec, 1864/2013, p. 114)
Buscar a luz, então, não é virar as costas ao real. É acender uma lanterna no meio da noite e seguir caminhando. É confiar que há uma inteligência maior tecendo o fio da nossa história — mesmo quando o tear parece emaranhado. Cuidar dos pensamentos, cultivar a confiança na justiça divina, não é passividade: é arte marcial da alma. É escolher, a cada instante, pela versão da realidade que liberta, que cura, que reconstrói.
E se um dia cruzares com alguém perdido na própria névoa — ou se tu mesmo te reconheceres nela — aproxima-te. Não com palavras de cartilha, mas com o silêncio que acolhe, com o ouvido que ouve além do dito. Oferece lembranças suaves: a vida tem um peso de glória, um propósito que às vezes se esconde atrás da cortina da dor. Que a luz da compreensão, doce e paciente, envolva quem vagueia nas sombras. Que a serenidade que desce do Alto, como brisa depois do temporal, reconduza passo a passo à vereda do crescimento — porque no fim das contas, só há uma libertação verdadeira: a que encontramos quando aceitamos caminhar, aprender e florescer, aqui e agora, neste chão sagrado que nos foi dado para pisar.
Que assim seja, com amorosidade e poesia.
Referência:
Kardec, A. (2013). O Evangelho Segundo o Espiritismo (G. Ribeiro, Trad.). Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1864).
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