A fitoterapia tem acompanhado a humanidade desde os povos primitivos - que já utilizavam plantas medicinais para curar doenças. É o mais antigo sistema de cura do mundo e o mais utilizado por todos os povos. Esta utilização era baseada no conhecimento das características e das aplicações das plantas curativas indígenas que os rodeavam. De facto, o uso quase instintivo das plantas com fins curativos, remonta a muito antes de existir o que hoje conhecemos como Europa, subsistindo desde os alvores da história da humanidade, e está bem documentado nos povos indianos, chineses, egípcios, gregos, romanos, etc. Alguns desses povos (a China e a Índia, por exemplo) conservaram uma tradição herbática forte, enquanto na Europa e na América do Norte, a tradição foi-se perdendo, durante o século XX, à medida que a medicina ocidental foi ganhando proeminência. História da fitoterapia europeia Em relação à história da fitoterapia europeia, faltar-nos-ia o tempo para descrever todos os grandes mestres, cujas realizações e obras marcaram de forma significativa o desenvolvimento da medicina herbática. Mas não podemos, no entanto, deixar de referir alguns nomes que foram determinantes para o início da fitoterapia como a conhecemos hoje. Referimo-nos a Hipócrates (460-377 a.C.) - considerado «o pai da medicina», com a publicação da Corpus Hippocraticum, consagrando a existência da terapia com os vegetais; Dioscórides (100 d.C.), sucedâneo de Hipócrates, que, com o seu famoso trabalho «De Matéria Médica», muito contribuiu para o aumento do arsenal fitoterápico e, mais tarde, já nos anos 160 e 180 d.C., Galeno, o médico grego que inicia a «Farmácia Galénica», utilizando somente os vegetais. A medicina foi deixando o esoterismo e o misticismo e avançando cientificamente no terreno da terapêutica, assim como na classificação das doenças, posologia e diagnóstico. Durante mil anos, porém, as trevas marcaram a Europa e só em 1220 nasceu a primeira Grande Escola de Medicina da Idade Média, em Salerno, perto de Roma, fundada por Carlos Magno. Durante este período, os estudos de Farmácia também avançaram rapidamente. É interessante que extratos alcoólicos, como o vinho ou os destilados como a vodka e o gim, já eram bem conhecidos na Europa sendo usados para extrair o «espírito das plantas».
Bases filosóficas e etiológicas Mas quais as
bases filosóficas e etiológicas da fitoterapia naturopática europeia?
A fitoterapia assenta nos princípios filosóficos
da Medicina Hipocrática ou Naturopática e da Medicina Tradicional.
De um modo geral, os especialistas em fitoterapia
são treinados com diferentes abordagens filosóficas da saúde, baseadas
como já disse na Medicina Hipocrática e Tradicional, as quais incorporam a
compreensão filosófica da saúde, da doença, do processo de cura e a interação
desses fatores com o indivíduo (levando em conta sintomas,
história pessoal, aspetos físicos, mentais,
emocionais e espirituais, envolvimento sociocultural
e ocupacional). Essa compreensão leva a uma
abordagem aprimorada e complexa do tratamento do
utente. Podemos dizer que a fitoterapia ocidental se baseia essencialmente nas
tradições europeias herdadas dos povos que deram origem à Europa atual. No
entanto, foi também marcada pela influência de algumas ideias e práticas
importadas e exportadas a partir do século XVI com Cabral e Colombo, bem como
pela tradição americana, em especial da América do Norte nos séculos XIX e XX. Tendo
o movimento fitoterápico na América incorporado a tradição herbática dos
nativos, é hoje bem visível a sua influência na fitoterapia europeia,
pelo uso frequente de muitas plantas desta região, quer na fitoterapia
ocidental quer na portuguesa como é o caso da Echinacea (Echinacea
angustifolia), do Cajueiro (Anacardium occidental), dos Piripiris e dos
Pimentos (Capsicum sps.), que tão bem conhecemos. Por outro lado, podemos dizer
que Portugal também marcou de forma indelével a fitoterapia europeia.
De facto, os Descobrimentos Portugueses e a
Expansão levaram a contactos com outros povos, culturas e floras, o
que promoveu um incremento da comunicação e
transporte entre os povos como nunca tinha
acontecido até ao século XV. Os portugueses como pioneiros tornaram as plantas
acessíveis a todo o mundo, em especial as plantas oriundas da Índia, da China,
do Brasil e da África. A medicina europeia deu um enorme salto qualitativo
com os conhecimentos transmitidos pelos
nossos exploradores e cientistas, dos quais
podemos destacar Garcia de Orta, Tomé Pires e Amato Lusitano, entre
outros.
Declínio da fitoterapia
A partir do início
da sintetização de substâncias de estrutura
química definida e de ação farmacológica
deu-se o declínio da fitoterapia, com
a diminuição radical da prescrição médica
de produtos vegetais. As plantas medicinais
foram praticamente esquecidas pelas elites,
cedendo lugar às substâncias sintéticas. Tal fase decorre
principalmente do início da década de 50 até o final dos anos 70. No
final dos anos 70, os grandes centros
de pesquisas em todo mundo passaram a
direcionar com vivo entusiasma, vultosos
recursos, tanto governamental como de iniciativa
privada, para a pesquisa das propriedades curativas das
plantas medicinais. Multiplicaram-se então, na imprensa, informações
sobre as vantagens da farmacobotânica, sendo
tal movimento acompanhado pelo surgimento
de um número considerável de estabelecimentos comerciais especializados
em plantas. Deram-se então passos importantes no desenvolvimento da fitoterapia
europeia, nomeadamente:
• No final da década de 70, a Organização Mundial da Saúde (OMS) cria o Programa de Medicina
• No final da década de 70, a Organização Mundial da Saúde (OMS) cria o Programa de Medicina
Tradicional, com o objetivo de proteger e
promover a saúde dos povos do mundo, incentivando a preservação da
cultura popular sobre os conhecimentos da
utilização de plantas medicinais e da Medicina
Tradicional. (BRASIL, 2006; WHO, 2002)
A OMS recomendou então aos estados-membros «o desenvolvimento de políticas públicas para facilitar a integração da medicina tradicional e da medicina complementar alternativa nos sistemas nacionais de atenção à saúde, assim como promover o uso racional dessa integração» (BRASIL, 2006). Para isso, seria necessário promover a segurança, eficácia, qualidade, acesso e uso racional dessas práticas. (WHO, 2002)
A OMS recomendou então aos estados-membros «o desenvolvimento de políticas públicas para facilitar a integração da medicina tradicional e da medicina complementar alternativa nos sistemas nacionais de atenção à saúde, assim como promover o uso racional dessa integração» (BRASIL, 2006). Para isso, seria necessário promover a segurança, eficácia, qualidade, acesso e uso racional dessas práticas. (WHO, 2002)
• Mais tarde, em 1989, foi fundada a
ESCOP (European Scientific Cooperative on Phytotherapy) – Cooperativa
Científica Europeia de Fitoterapia, como objetivo de estabelecer critérios
equilibrados para o acesso aos produtos
fitoterápicos, dar suporte à pesquisa
científica e contribuir para a aceitação da Fitoterapia
na Europa. (SCHILCHER, 2005)
É ainda de salientar que em 1978 foi estabelecida
a Comissão E, uma divisão da Agência Federal de Saúde da Alemanha que recolhe
informações sobre as plantas medicinais e as avalia de acordo com a segurança
e eficácia. É responsável pelo registo
e preparação de fitofármacos, processando as informações
de estudos científicos sobre preparações das plantas e ervas medicinais para
produzir monografias. É interessante que a
Comissão E combina dados científicos com
conhecimento tradicional (medicina popular), e já publicou cerca de 300
monografias. (SCHILCHER, 2005; WHO, 1998)
• A OMS chegou
mesmo a lançar quatro volumes (com um
total de 117 monografias) de plantas
medicinais, resultado de uma ampla revisão
meticulosa da literatura científica, bem
como do trabalho de especialistas a nível internacional, com o objetivo
de promover a segurança e a eficiência no uso da Fitoterapia nos sistemas de
saúde. (WHO, 1999; WHO, 2001; WHO, 2007)
Renascer do interesse pela fitoterapia
De facto, em anos
recentes, temos assistido ao renascer do
interesse pela fitoterapia. Isto deve-se, em
muito, por um lado aos progressos na investigação e ao estudo dos princípios
ativos das plantas e por outro aos efeitos secundários indesejáveis, por
vezes até mesmo nefastos, da maioria dos medicamentos químicos, utilizados na
medicina convencional, que incitam hoje em dia à prudência. A
constatação dos benefícios da aplicação das
plantas medicinais em certos tipos de
patologias, o número crescente de ensaios
clínicos sobre medicamentos à base de
plantas e o desenvolvimento de métodos que
garantem um melhor controlo de qualidade,
tanto da matéria-prima como dos próprios produtos
fitoterápicos, têm contribuído em muito para o renovado interesse pela
fitoterapia nos nossos dias. Não há dúvidas de
que, atualmente, o uso das plantas
medicinais é cada vez mais científico
e menos empírico. Podemos afirmar que a fitoterapia deixou de se
fundamentar unicamente no uso tradicional, estando cada vez mais apoiada nos
aspetos da qualidade, da eficácia e da segurança.
A fitoterapia e as suas particularidades nos dias
de hoje
Muitos dos medicamentos utilizados hoje em dia
inspiraram-se em plantas. Alguns bem conhecidos como a aspirina (que é feita a
partir de moléculas idênticas a substâncias extraídas do salgueiro e do
ulmeiro), a morfina (a partir de moléculas idênticas às substâncias extraídas
das sementes de ópio) e mesmo as pílulas anticoncecionais (que se inspiraram em
substâncias extraídas de inhame selvagem). No entanto, ao contrário do
medicamento alopático, que extrai uma parte isolada da planta, ou seja, o
seu princípio ativo, sintetizando-o quimicamente, a fitoterapia utiliza a
planta em si (toda ou parte dela). Este é um dos
principiais aspetos que distingue a fitoterapia.
A planta medicinal, para além do, ou
dos constituintes ativos, contém outros compostos
que podem influenciar a sua ação. Na
realidade, tais compostos, frequentemente, protegem
os constituintes ativos de alterações,
sejam estas por oxidação, hidrólise, etc.,
promovendo mesmo uma melhor absorção pelo
organismo, ao auxiliarem a passagem de membranas
ou ao inibirem sistemas enzimáticos. Daí que a ação da planta, ou de um extrato,
muitas vezes revele uma maior atividade terapêutica do que a mesma quantidade
do constituinte ativo isolado.
Se pensarmos no exemplo da couve percebemos
claramente a diferença entre usar a planta na íntegra e apenas um
dos seus constituintes isolados. Nunca se
ouviu falar de que a couve tenha
provocado a morte de alguém, mas o mesmo já não se pode dizer de um dos
seus princípios ativos, o Arsénio (As), que isolado é letal para o ser humano.
Este aspeto está relacionado até com a
própria definição de fitoterapia. A palavra Fitoterapia deriva dos termos
gregos «Phyton» que significa planta vegetal
e «Therapeia», terapia ou tratamento. É, portanto,
caracterizada pelo uso terapêutico de plantas medicinais.
Fitoterapia, Herbologia,
Medicina Botânica, Medicina Vegetal, Medicina
Herbática, Medicina pelas Plantas, entre outras
designações significa basicamente tratamento
pelos vegetais em geral ou pelas «Plantas
Medicinais» - ervas, árvores, arbustos, líquenes, musgos, fungos, algas.
Podendo esta utilizar a planta inteira ou partes (raiz, flor, folhas,
frutos ou sementes, cascas, sucos, seiva ou resinas, madeira, etc.), mas não
constituintes isolados.
A Organização Mundial de
Saúde (OMS) define medicina herbática ou
fitomedicina como «aquela que utiliza preparações
herbáticas produzidas pela sujeição dos
materiais de origem vegetal à extração, fracionamento,
purificação, concentração, ou outros processos
físicos ou biológicos». Os produtos herbáticos
podem conter excipientes, ou ingredientes
inertes, adicionados aos ingredientes ativos. Mas
a fitoterapia não recorre a princípios ativos isolados. Um outro
aspeto em que a fitoterapia se distingue,
é por agir em profundidade, sem
agredir o organismo, estimulando as defesas em vez de se sobrepor a elas.
Sempre considerando que se deve abolir a causa e não
os sintomas, uma vez que estes são
apenas sinais de aviso de que algo
corre mal no organismo. O resultado é
uma ação eficaz, duradoura e, sobretudo,
desprovida de efeitos secundários nefastos. Não quer isto
dizer que as plantas e os produtos vegetais sejam totalmente desprovidos de
efeitos tóxicos e adversos. Nem que a ideia popularmente generalizada de que «o
que é natural não faz mal», seja verídica.
De facto, existem imensas plantas medicinais
dotadas de elevado grau de toxicidade, promovida pela existência na sua
composição de determinados constituintes ativos muito tóxicos.
Como exemplo do acima
indicado podemos apontar a presença de
alcaloides (como a curarina, estricnina, morfina, etc.), que em
doses não terapêuticas podem ser fatais. Existem também situações em que
são os constituintes, não responsáveis pela
ação terapêutica da planta, que provocam
efeitos adversos e toxicidade, especialmente
perante um uso prolongado, como é o
caso dos alcaloides
Entre fitoterapeutas ouvir-se que «não
existem venenos, o que existem são doses». Pelo que, para que se possa
usufruir de todos os benefícios que
as plantas medicinais nos propõem, é
fundamental que os tratamentos que as têm como base sejam
orientados por um fitoterapeuta competente e responsável e que as dosagens
recomendadas sejam respeitadas. Desta forma, assegura-se o uso seguro e
eficaz das plantas medicinais.
Conclusão
A existência de
fitoterapeutas no nosso país é extremamente
recente. O facto é que, assumidamente, existe
agora em Portugal a profissão de
fitoterapeuta. Mas uma profissão com
paradigma não convencional, não farmacêutico, nem médico. Se pensarmos no
exemplo da couve percebemos claramente a diferença entre usar a planta na
íntegra e apenas um dos seus constituintes
isolados. Nunca se ouviu falar de que
a couve tenha provocado a morte de alguém, mas o mesmo
já não se pode dizer de um dos seus princípios ativos, o Arsénio (As), que
isolado é letal para o ser humano. Como exemplo do
acima indicado podemos apontar a presença
de alcaloides (como a curarina, estricnina, morfina, etc.),
que em doses não terapêuticas podem ser fatais. Existem também situações em que
são os constituintes, não responsáveis pela
ação terapêutica da planta, que provocam
efeitos adversos e toxicidade, especialmente
perante um uso prolongado, como é o
caso dos alcaloides pirrazolidínicos.
A fitoterapia da Lei 45/2003 das Terapêuticas Não
Convencionais assenta os seus pilares em Mestres como
Lyon de Castro, Colucci e Marchesseau, ou seja,
em mestres naturopatas que inevitavelmente integravam a fitoterapia no seu
saber e na sua prática clínica. Em suma, o futuro aponta para uma valorização
crescente e para o incremento do uso de fitoterápicos como opção terapêutica
eficaz e segura.
Fonte: IPS – instituto Profissional
de Saúde

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