por Lokasaksi Dasa (Lúcio valera)
No Hinduísmo podemos visualizar um espectro de crenças que parece ir do ateísmo ao monoteísmo, passando pelo politeísmo, monismo, panteísmo e panenteísmo. Contudo, devemos ter em conta que o Hinduísmo como um sistema plural de pensamento teológico não esgota as categorias religiosas tradicionalmente utilizadas no Ocidente.
Se por ateísmo queremos dizer a negação da existência da causalidade última de um Deus eterno (Abbaganano, 1982, p. 82; Schlesinger, 1995, p. 272), podemos identificá-lo em alguns hinos do Ṛg Veda, nas Upanisads mais antigos, nas escolas filosóficas (darśanas) do Sāṁkhya, Mīmāṁsā e Vedānta advaita (de Śaṅkara), e na tradição materialista de Cārvāka. O Sāṁkhya clássico rejeita a ideia de um Deus criador e eterno; o Mīmāṁsā argumenta que os Vedas não têm a autoria de uma deidade; e o Vedānta advaita, reconhece o papel instrumental de um Deus (Īśvara) na criação, mas o considera ontologicamente irreal. Já o Cārvāka heterodoxo advoga um ateísmo hedonista explicito. Os assim chamados ateístas hindus consideram o Hinduísmo mais como uma ‘forma de vida’ do que uma religião, e partilham de valores culturais e morais em comuns com os outros hindus.
Dessa forma, o caráter politeísta do Hinduísmo tem elementos monoteístas. Por isso, Sri Aurobindo descarta o caráter politeísta do Hinduísmo, quando declara que: “O politeísmo indiano não é o politeísmo popular da Europa antiga; pois aqui os adoradores dos muitos deuses reconhecem que todas as suas divindades são formas, nomes, personalidades e poderes do uno; seus deuses procedem de um único puruṣa e suas deusas são energias de uma única Força divina” (Aurobindo, 1984, p. 135).
Similarmente, não podemos confundir o que chamaríamos de monoteísmo indiano com os monoteísmos semitas e cristãos, pois no indiano, diferentemente do semita-cristão, concilia-se o aspecto impessoal ou não dual da Realidade última com seu aspecto pessoal imanente e/ou transcendente.
Por isso o conceito hindu da Realidade última, quando não estiver indicando a Divindade exclusivamente como impessoal e indiferenciada – doutrina característica do panteísmo e do monismo –, poderia ser mais bem definido como um ‘monoteísmo panenteísta’.
Por panenteísmo nos referimos à “teoria criada por Christian Krause (1781-1832) para designar uma síntese entre o teísmo e o panteísmo o qual consistiria em admitir que tudo o que existe, existe em Deus e existe como revelação e realização de Deus” (Abbaganano, 1982, p.711-712). Tal conceito panenteísta está explícito nos textos da Bhagavad-gītā:
mayā tatam idaṁ sarvaṁ jagad avyakta-mūrtinā, mat-sthāni sarva-bhūtāni na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
“Por mim este universo inteiro é permeado, pela minha forma não manifesta. Todos os seres situam-se em mim, mas eu não estou neles” (Bhagavad-gita, 9.4).
O Vaiṣṇavismo, segundo Srinivasa Chari, “é um sistema monoteísta baseado na teoria de que Viṣṇu é a Realidade última, a Deidade suprema (paratattva) e idêntico com o Brahman dos Upaniṣads” (Chari, 2005, p. xxvi). Essa tradição considera que a adoração exclusiva e devotada a Viṣṇu conduz à obtenção da meta espiritual última e com esse propósito estabeleceu uma disciplina ética e religiosa.
Nele, o conceito de bhakti identifica-se com a devoção exclusiva a Viṣṇu, Rāma, ou Kṛṣṇa , e pode ser encontrada nos textos do Ṛg-veda, Bhagavad-gītā, Bhakti-sūtras e Bhāgavata Purāṇa, na vida e canções dos santos Āḷvārs, bem como nos ensinamentos dos ācāryas vaiṣṇavas, como Rāmānuja, Madhva, Nimbārka, Vallabha e Caitanya Mahāprabhu.
Contudo, como já foi visto, o conceito de bhakti também pode ser encontrado no Śaivismo, como devoção a Śiva, e nas tradições não dualistas (advaita) de Śaṅkara e de outros místicos como Kabir, como devoção impessoal (nirguṇa bhakti) ao Absoluto.
Quanto ao monoteismo bhakti , ou seja, quanto à tradição devocional do hinduismo, em sua relação com o Vaiṣṇavismo, Chari, traçando as origens deste, explica:
"Podemos remontar a origem do Vaiṣṇavismo no Ṛg Veda, que é a literatura religiosa mais antiga do mundo. A tradição, contudo, atribui a sua origem ao ensinamento oral comunicado pelo próprio Viṣṇu à deusa Lakṣmī que por sua vez o transmitiu a Viśvakṣena, o anjo divino. Julgando em base de registros literários existentes, podemos encontrar no Ṛg Veda evidências adequadas e inquestionáveis dos princípios básicos do Vaiṣṇavismo. Há vários hinos no Ṛg Veda, alguns dos quais também se repetem no Yajur Veda e no Sāma Veda, que falam de Viṣṇu como o único criador e controlador do universo e salvador da humanidade. Indólogos ocidentais e alguns acadêmicos indianos têm, contudo, adotado a opinião que o Viṣṇu mencionado no Ṛg Veda é uma entre várias deidades tais como Agni, Rudra, Prajāpati, Indra, Varuṇa, Soma, etc., e que Viṣṇu, portanto, não é a Deidade suprema. Um estudo imparcial dos hinos relacionados com Viṣṇu, em base nas interpretações de antigos comentadores como Yāska e os interpretes do Vedānta, nos traz as verdadeiras implicações das afirmações védicas e revelam além de qualquer dúvida que a opinião dos indólogos é incorreta." (Chari, 2005, p.3).
Nos Vedas não encontramos a adoração de Viṣṇu como um Deus da graça, nem a utilização da palavra bhakti, como devoção incondicional a ele. Isso não está explicito nos Vedas nem nos Brāhmaṇas. Hemchandra Raychaudhuri esclarece esse ponto da seguinte forma:
"Apesar de Viṣṇu ser visto por alguns como o mais excelente dos deuses, até hoje ele está longe de ser considerado por qualquer dos povos arianos como o Deus único [...] É muito distante a conexão entre a adoração védica e brâmane de Viṣṇu e a religião bhakti que chamamos de Vaiṣṇavismo. A ideia de um Deus de graça e a doutrina de bhakti são conceitos fundamentais da religião conhecida como Vaiṣṇavismo. Mas elas não estão evidentes na adoração védica e brâmane de Viṣṇu. Viṣṇu nos textos brâmanes está conectado mais intimamente com o yajana (sacrifício) do que com bhakti ou prasāda." (Raychaudhuri, 1975, p. 17-18).
Assim, a tradição do Vaiṣṇavismo, como a adoração de Viṣṇu se manifesta na época védica de uma forma diferente daquela que conhecemos hoje. Segundo Kapoor, podemos identificar que as sementes do Vaiṣṇavismo atual foram semeadas naquela época, tendo em vista o fato de que há descrições de Viṣṇu, que poderiam muito bem ser relacionadas não apenas com um Deus supremo, mas também com um Deus único (Kapoor, 1977, p. 2).
Quanto à possibilidade da existência de um Deus único, isso não é disputado nos Vedas: “O que é Um, os sábios descrevem de formas diferentes, como Agni, Yama, Mātariśva” . Certamente isso poderia se aplicar a qualquer uma das divindades ali descritas, mas nenhuma delas deixou tradições que reivindicassem tal pretensão; como aconteceu enfaticamente com a tradição de Viṣṇu.
Kapoor descreve que o politeísmo, por meio do henoteísmo , se desenvolveu até o monoteísmo e que esse monoteísmo do período védico mais tardio estava centrado em Viṣṇu. Ele afirma também que esse:
Monoteísmo, ou a crença em um Deus único, que é todo-poderoso e dotado de todas as qualidades auspiciosas, que pode responder às preces dos devotos, e em quem eles podem depender plenamente, implica necessariamente em fé ou śraddhā, que é o primeiro passo de bhakti. Reconhece-se que śraddhā seja a essência da religião védica, que se constituía principalmente de sacrifícios (RV. 10.151). Ela é a mãe dos ritos, e Manu o seu pai: śraddhā mātā manuḥ pitā (SV. 1.1.9). (Kapoor, 1977, p. 2).
O Vaiṣṇavismo Bengali ou Gauḍīya, fundado por Caitanya Mahāprabhu e seus seguidores, é classificado como uma tradição monoteísta e considera a adoração devocional (bhakti) a Kṛṣṇa, ou Govinda, como o meio supremo para se obter o destino final da existência. Kṛṣṇa é visto como a personalidade original (adi-puruṣam) e plena (svayam bhagavān) da Divindade, e as muitas formas de Viṣṇu como suas expansões ou encarnações. A posição suprema de Kṛṣṇa é estabelecida pelo Bhāgavata Purāṇa, que o considera não apenas como um avatāra de Viṣṇu, mas sim como o próprio Bhagavān que é a fonte de todos os o misticismo extático. Depois de expor as diferentes manifestações da Divindade, afirma-se que “de todas as encarnações enumeradas, algumas são porções plenárias e outras são partes de porções plenárias, mas Kṛṣṇa é o próprio Bhagavān” .
No não dualismo do Vaiṣṇavismo Gauḍīya, estabelecido pelo Bhāgavata Purāṇa (BhP, 1.2.11), a Divindade como Realidade consciente única (jñānam advayam) tem três aspetos distintos e indivisos: (1) Brahman, o Ser absoluto, impessoal, que abrange a existência de todas as categorias eternas e reais; (2) Paramātmā, a divindade pessoal e a consciência imanente, situada no coração de todos os seres, que se manifesta na forma das diferentes encarnações de Viṣṇu; e (3) Bhagavān, a suprema personalidade da Divindade, que surge de sua transcendência mística, para se relacionar amorosamente com seus devotos. Apesar de muitas vezes constar em listas de encarnações, Kṛṣṇa seria o próprio Bhagavān original. Significativamente, Jayadeva, na lista das dez encarnações apresentadas no seu Gītā Govinda omite Kṛṣṇa, pois o considera como a própria fonte das encarnações .
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
AUROBINDO, Sri. The Foundations of Indian Culture: and the Renaissance in India. Pondicherry: Sri Aurobindo Ashram, 1984.
CHARI, S. M. Srinivasa. Vaisnavism: Its Philosophy, Theology and Religious Discipline. Delhi: Motilal Banarsidass, 2005.
KAPOOR, Oudh Bihari Lal. Religion and Philosophy of Sri Caitanya. New Delhi: Munshiram Manoharalal Publishers, 1977.
RAYCHAUDHURI, Hem Chandra. Materials for the Study of Early History of vaiṣṇava Sect. New Delhi: Oriental Books Reprint Corp., 1975.
SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto. Dicionário enciclopédico das religiões. Petrópolis: Vozes, 1995.
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