Quantas vezes nos deparamos com o peso das nossas ações passadas, sentindo o remorso a corroer-nos a alma? É natural que, ao tomarmos consciência dos nossos erros, sintamos o desejo ardente de os corrigir, de os resgatar de alguma forma. Esta questão, tão profunda e intrinsecamente ligada à nossa evolução espiritual, é abordada na pergunta 1000 de "O Livro dos Espíritos", obra fundamental da Doutrina Espírita.
Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, indaga aos Espíritos Superiores: "Podemos, desde esta vida, resgatar as nossas faltas?". A resposta que obtém é clara e reconfortante: "Sim, reparando-as. Mas não acrediteis que as resgateis por meio de algumas privações pueris ou distribuindo em esmolas o que tiverdes de supérfluo, depois da vossa morte. O sangue de Cristo não resgata senão o homem que se arrepende; o bem só tem mérito aos olhos de Deus quando é feito de coração, com absoluto desinteresse".
Esta resposta encerra em si uma profunda sabedoria e convida-nos a uma reflexão mais aprofundada sobre o verdadeiro significado do resgate das nossas faltas. Não se trata de uma simples troca, como se pudéssemos comprar o nosso perdão através de atos isolados ou de sacrifícios vazios. O resgate das nossas faltas é, na verdade, um processo de transformação interior, um caminho de autoconhecimento e de evolução espiritual.
O primeiro passo neste caminho é, sem dúvida, o reconhecimento das nossas faltas. É preciso olhar para dentro de nós mesmos com honestidade e coragem, identificando os nossos erros e as suas consequências. Este exercício de autocrítica pode ser doloroso, mas é essencial para o nosso crescimento. Só quando reconhecemos as nossas falhas é que podemos começar a trabalhar para as corrigir.
O arrependimento sincero surge como o segundo passo neste processo. Não se trata de um arrependimento superficial ou motivado pelo medo das consequências, mas sim de um sentimento profundo de pesar pelas nossas ações e pelo mal que possamos ter causado. É este arrependimento genuíno que nos impulsiona a mudar, a querer ser melhores.
Contudo, o arrependimento por si só não basta. É necessário que ele se traduza em ações concretas, em mudanças efetivas no nosso comportamento e na nossa forma de estar no mundo. É aqui que entra a reparação das nossas faltas. Esta reparação pode assumir diversas formas, dependendo da natureza das nossas faltas e das circunstâncias em que nos encontramos.
Por vezes, a reparação pode envolver um pedido de desculpas sincero a alguém que magoámos. Outras vezes, pode implicar a restituição de algo que tirámos indevidamente. Em muitos casos, a reparação passa por mudarmos os nossos hábitos e atitudes, trabalhando ativamente para sermos pessoas melhores e mais compassivas.
É importante salientar que este processo de resgate das nossas faltas não é algo que se faça de um dia para o outro. É uma jornada contínua, que exige perseverança e dedicação. Haverá momentos de dificuldade, de dúvida, talvez até de desânimo. Mas é precisamente nestas alturas que devemos lembrar-nos do propósito maior desta jornada: o nosso crescimento espiritual e a nossa aproximação a Deus.
Como nos lembra Divaldo Franco, renomado médium e orador espírita, na sua obra "Momentos de Meditação":
"A reencarnação é a oportunidade sublime de refazermos o caminho, corrigindo os equívocos do passado e avançando na direção da plenitude. Cada dia é um novo começo, uma página em branco onde podemos escrever uma história diferente, mais bela e mais digna"[1].
Esta citação reforça a ideia de que o resgate das nossas faltas não é apenas possível, mas é uma parte fundamental do nosso processo evolutivo. Cada dia que vivemos é uma oportunidade de fazermos melhor, de sermos melhores.
É importante ressaltar que o resgate das nossas faltas não deve ser visto como um fardo pesado ou como uma punição. Pelo contrário, é uma bênção, uma oportunidade de crescimento e de libertação. À medida que vamos corrigindo os nossos erros e aprendendo com eles, sentimos uma leveza de espírito, uma paz interior que só o verdadeiro arrependimento e a reparação sincera podem trazer.
Além disso, ao trabalharmos no resgate das nossas faltas, não estamos apenas a beneficiar-nos a nós mesmos. Estamos também a contribuir para um mundo melhor, mais justo e mais compassivo. Cada ato de reparação, cada gesto de bondade, cada mudança positiva que fazemos em nós mesmos tem um impacto no mundo à nossa volta.
Em conclusão, a resposta à pergunta "Podemos, desde esta vida, resgatar as nossas faltas?" é um inequívoco "sim". Não só podemos como devemos fazê-lo. É uma parte essencial da nossa jornada espiritual, um caminho de aprendizagem, crescimento e evolução. Que possamos, pois, abraçar esta oportunidade com coragem e determinação, sabendo que cada passo que damos neste caminho nos aproxima um pouco mais da perfeição que todos almejamos alcançar.
[1] Franco, Divaldo. "Momentos de Meditação". Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2013.

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