Os itens 80 e 81 de O Livro dos Médiuns representam um dos momentos mais luminosos da obra kardequiana. Neles, Allan Kardec procura explicar fenómenos tradicionalmente atribuídos ao milagre ou ao sobrenatural, propondo uma leitura natural, racional e progressiva da realidade espiritual — uma verdadeira física do invisível.
1. Da mesa ao homem: a lógica da levitação
Kardec parte de uma ideia simples:
se um Espírito pode suspender uma mesa, pode suspender qualquer corpo,
desde que exista força fluídica suficiente.
É neste contexto que surge Daniel Dunglas Home, o célebre
médium de efeitos físicos. Kardec menciona um episódio em que Home, suspenso no
ar, deixou uma marca de lápis no tecto para provar que o fenómeno não era
ilusão óptica. A marca permaneceu — um testemunho material de um acontecimento
que ultrapassava as explicações convencionais.
A frase de Kardec — “era ao mesmo tempo a causa eficiente
e o objecto” — resume tudo:
o médium fornece o fluido vital; o Espírito dirige a operação.
2. A alteração do peso: quando a resistência não vem da
massa
No item 81, Kardec descreve objectos que se tornam
subitamente leves ou pesados, sem alteração da massa.
A chave está no meio fluídico que os envolve.
Para explicar isto, Kardec recorre à campânula pneumática:
quando o ar é retirado, a pressão externa torna impossível levantar o vidro,
embora o seu peso real seja o mesmo.
Assim também, o Espírito pode manipular o “fluido
universal”, aumentando ou diminuindo a resistência que envolve um corpo.
A analogia com a electricidade reforça a ideia: invisível,
imponderável, mas capaz de exercer força real.
3. A ciência do invisível e o fim do sobrenatural
O objectivo de Kardec não é criar mistério, mas dissipá-lo.
Ao explicar estes fenómenos por leis naturais — ainda que desconhecidas —, ele
retira-lhes o carácter sobrenatural.
O milagre deixa de ser uma suspensão das leis da natureza e
passa a ser a manifestação de leis que ainda não compreendemos.
O Espiritismo não rompe com a ciência: amplia-a.
4. A lição filosófica: a realidade é maior do que os
sentidos
Estes itens revelam uma verdade profunda:
a realidade não se esgota no que os olhos vêem.
Vivemos mergulhados num oceano de forças invisíveis —
físicas, morais e espirituais — que influenciam o mundo tanto quanto a
gravidade ou a luz.
A física espírita não substitui a física clássica:
completa-a.
Onde a ciência vê apenas matéria, Kardec vê matéria e fluido;
onde vê força mecânica, Kardec vê força e vontade;
onde vê limite, Kardec vê continuidade.
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