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Não há demónios eternos: a visão espírita do mal



Entre os muitos méritos de O Livro dos Espíritos, talvez nenhum seja tão libertador quanto a sua leitura moral do mal. Longe de conceber o Universo como um campo de batalha entre forças antagónicas — Deus de um lado, o mal do outro — a Doutrina Espírita restitui-nos uma visão profundamente unitária, racional e eticamente elevada da Criação.  

Kardec, com a lucidez que o caracteriza, pergunta aos Espíritos se os anjos constituem uma ordem distinta, uma espécie privilegiada, criada perfeita desde o princípio. A resposta é de uma simplicidade que desarma preconceitos seculares:  

> “Os anjos são Espíritos puros, que chegaram ao último grau da escala, e que reúnem todas as perfeições.”  
> (O Livro dos Espíritos, q. 128)

Não nasceram perfeitos: tornaram-se. A perfeição é fruto de esforço, de experiência, de escolhas sucessivas orientadas para o bem. A Criação não conhece favoritismos: todos os Espíritos começam simples e ignorantes, e todos caminham, por mérito próprio, para a plenitude.

Esta ideia, tão clara quanto exigente, devolve-nos a esperança e a responsabilidade. Se os anjos foram um dia imperfeitos, então a distância que nos separa deles é apenas a do tempo e do trabalho interior. A evolução espiritual não é privilégio: é destino.

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A questão dos demónios: mito, símbolo e realidade moral

A pergunta seguinte de Kardec é inevitável: se há Espíritos perfeitos, haverá também Espíritos eternamente maus? A tradição religiosa, durante séculos, alimentou a imagem de demónios irredimíveis, condenados desde sempre a combater o bem.  

A resposta dos Espíritos superiores dissolve essa concepção com a serenidade da razão:

> “Se houvesse demónios, seriam obra de Deus; ora, Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres destinados ao mal e condenados para sempre.”  
> (O Livro dos Espíritos, síntese das q. 131 e 132)

O mal absoluto, eterno e irredutível seria uma afronta à justiça divina. O que chamamos “demónios” são, na verdade, Espíritos ainda presos à ignorância, à revolta ou ao egoísmo — almas que sofrem as consequências naturais das suas próprias escolhas.  

Não são inimigos de Deus, nem forças cósmicas em oposição ao bem. São Espíritos imperfeitos, em estágios atrasados da evolução, destinados — como todos — a regenerar-se.

O mal, portanto, não é uma essência, mas uma condição transitória. É a sombra que se dissipa quando a consciência desperta.

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Cristo e a linguagem simbólica do mal

Kardec recorda que o próprio Cristo, ao ensinar, recorria frequentemente a imagens adaptadas ao entendimento do povo da época. Termos como “demónio”, “Satanás” ou “espírito impuro” devem ser compreendidos no seu valor figurado, como representações do mal moral, das paixões desordenadas, das tendências inferiores que ainda habitam o ser humano.  

Não se trata de entidades rivais de Deus, mas de símbolos pedagógicos, destinados a tornar visível a luta interior entre o bem e o mal.

A Doutrina Espírita, ao interpretar estes símbolos, não os nega: eleva-os. Mostra que o verdadeiro combate não se trava fora, mas dentro de nós.

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Um Universo sem dualismos

A grande lição desta passagem é que não existem dois princípios eternos — o bem e o mal — em conflito permanente. Há apenas Deus, soberanamente bom, e os Espíritos criados simples e ignorantes, avançando, cada qual ao seu ritmo, rumo à perfeição.  

> “Todos os Espíritos tendem à perfeição, e Deus fornece-lhes os meios para a alcançarem.”  
> (O Livro dos Espíritos, q. 115)

Uns já caminham na luz; outros ainda se debatem nas sombras. E nós, entre uns e outros, seguimos também, com as nossas fragilidades, esperanças e esforços, aprendendo a transformar o mal que ainda trazemos em bem que um dia saberemos irradiar.

A visão espírita do mal é, assim, profundamente ética e profundamente consoladora. Não há condenações eternas, nem destinos irremediáveis. Há responsabilidade, liberdade e progresso. Há justiça que educa e amor que sustenta.  

E há, sobretudo, esta certeza serena: ninguém está perdido para sempre. Cada Espírito, por mais endurecido que pareça, guarda em si a semente da luz. E essa semente, mais cedo ou mais tarde, germinará.

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