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A Alma – O Espírito sob o Véu da Carne


A questão 134 de O Livro dos Espíritos apresenta‑se com uma simplicidade que quase desarma, mas encerra uma profundidade que ilumina toda a nossa caminhada. Quando Kardec pergunta: «Que é a alma?», a resposta chega sem rodeios: «Um Espírito encarnado.»

1. A nossa verdadeira identidade

Esta definição desfaz equívocos antigos e coloca cada coisa no seu lugar. Não somos criaturas que “possuem” uma alma como quem possui um objecto. Somos Espíritos, e, durante o período da encarnação, estamos alma. A diferença entre o ser que habita o mundo espiritual e o que vive na Terra é apenas a da roupagem que reveste a consciência.

Os instrutores espirituais recordam-nos que o Espírito é o ser inteligente da criação. Ele existe antes do corpo e continua a existir depois dele. A alma é, pois, o Espírito em tarefa, em aprendizagem, em experiência.

2. O corpo como instrumento de trabalho

O texto esclarece que o Espírito se reveste do corpo com objectivos muito definidos: purificar-se e esclarecer-se.

  • Purificar-se, no sentido de burilar o carácter, vencer imperfeições, amadurecer moralmente.
  • Esclarecer-se, no sentido de adquirir conhecimento, compreender as leis divinas, desenvolver a inteligência e a sensibilidade.

O corpo não é uma prisão, mas um instrumento. É através das limitações, das necessidades e dos desafios da vida material que o Espírito encontra oportunidades de crescer, de servir e de amar.

3. A continuidade da vida

Compreender que alma e Espírito são a mesma realidade em momentos diferentes da existência retira o temor da morte. A morte é apenas o instante em que o Espírito depõe o seu invólucro e regressa à sua verdadeira pátria.

Se hoje nos sentimos almas cansadas, inquietas ou aflitas, importa recordar que, na essência, somos seres imortais, viajores do infinito, aqui colocados por um breve período para aprender, reparar, compreender e evoluir.

Para reflexão final

Se a alma é o Espírito encarnado, então a qualidade da nossa alma depende da pureza, da lucidez e da vontade do nosso Espírito. Que uso estamos a dar a este corpo que nos foi confiado? Estamos a aproveitar a encarnação para crescer, ou deixamo-nos arrastar pelo peso da matéria e pela pressa dos dias?


Referência Bibliográfica 

Kardec, A. (1944). O Livro dos Espíritos (2.ª ed. portuguesa, Guillon Ribeiro, Trad.). Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1857).



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