As questões 132 e 133 de O Livro dos Espíritos oferecem-nos a chave para compreendermos por que estamos aqui. Muitas vezes, perante as "vicissitudes da existência", perguntamos se o sofrimento é um erro ou um castigo. A resposta dos Espíritos a Kardec é de uma clareza meridiana: a encarnação é uma necessidade e uma missão.
1. A Dupla Finalidade da Encarnação
Deus, na Sua sabedoria, não nos impõe o corpo físico apenas para o nosso progresso individual, mas para nos tornar co-autores da Criação.
Progresso Individual: Chegar à perfeição através da prova e da expiação.
Progresso Colectivo: Ser o instrumento de Deus na "marcha do Universo".
Ao trabalharmos na matéria — seja na ciência, na arte, no cuidado da terra ou na educação — estamos a cumprir a nossa parte na obra geral, e é nesse esforço que nos adiantamos. Nada é isolado; tudo se encadeia numa solidariedade universal.
2. A Justiça do Trabalho e do Mérito
Uma dúvida comum surge na questão 133: se todos somos criados "simples e ignorantes", por que têm todos de passar pelas tribulações da carne? A resposta é o pilar da Justiça Divina. Deus não concede a felicidade como um privilégio, mas como uma conquista. O mérito nasce da fadiga e do trabalho.
Contudo, há uma consolação importante: seguir o caminho do bem não nos isenta da vida corporal, mas torna-a infinitamente menos penosa. Como bem nota o texto, grande parte dos nossos tormentos não vem do mundo exterior, mas das nossas próprias imperfeições. Onde não há inveja, ambição ou avareza, não há a tortura que esses vícios provocam.
Conclusão
Compreender que somos Espíritos em missão temporária altera a nossa perspectiva sobre a dor e o dever. A encarnação não é uma queda, mas uma oportunidade de acção e crescimento. Sejamos, pois, instrumentos conscientes e dóceis nas mãos do Criador, sabendo que cada esforço de hoje é um passo a menos no caminho da nossa perfeição.
Referência Bibliográfica (Estilo APA):
Kardec, A. (1944). O Livro dos Espíritos (2.ª ed. portuguesa, Guillon Ribeiro, Trad.). Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1857).
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