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Bem-aventurados os que têm os olhos fechados: a luz que nasce da provação


Os dois ensinamentos do capítulo VIII de O Evangelho segundo o Espiritismo, itens 20 e 21, sob o título «Bem-aventurados os que têm fechados os olhos», convidam-nos a olhar a cegueira com uma profundidade que ultrapassa largamente a simples ausência de visão física. Não se trata apenas dos olhos do corpo, mas, sobretudo, da claridade ou da obscuridade que habitam o íntimo da alma.   

No item 20, o Espírito do Cura d’Ars (São João Maria Vianney), com uma ternura firme e compassiva, declara bem-aventurados aqueles que não podem ver, porque, privados das seduções da matéria, ficam mais livres para ver com os olhos do Espírito. Ele lembra que, muitas vezes, é precisamente através dos olhos do corpo que nos deixamos arrastar para a queda: são eles que se prendem às aparências, às vaidades, ao orgulho, às comparações e aos desejos que nos afastam de Deus. A verdadeira visão, ensina ele, é a visão interior—essa faculdade íntima de perceber o bem, de aspirar à pureza de coração e de se aproximar da vontade divina.   

Esta mensagem é, antes de mais, um apelo à confiança e à aceitação consciente. Quando uma limitação, uma doença ou uma perda nos toca, o primeiro impulso é, muitas vezes, a revolta: «Porquê eu? Porquê agora?» O Cura d’Ars convida-nos a inverter a pergunta: em vez de pedirmos apenas a cura do corpo, sejamos capazes de pedir, primeiro, a cura da alma. Porque é a alma que precisa de ser iluminada, esclarecida, pacificada; o corpo é instrumento transitório, enquanto o Espírito prossegue a sua marcha para além de uma única existência.   

À luz da Doutrina Espírita, o sofrimento que, à primeira vista, nos parece uma desgraça pode ser, em verdade, um caminho de crescimento e de libertação espiritual. Allan Kardec recorda, em vários pontos da obra, que as provações são meios de progresso, escolhidos ou aceites pelo Espírito, antes da encarnação, para reparar, aprender e se depurar. Não se trata de um Deus que castiga por capricho, mas de uma lei de amor e de justiça que permite ao ser humano colher, com sabedoria, aquilo que semeou, transformando a dor em experiência, e a experiência em luz.   

O item 21 vem completar e aprofundar esta visão. Explica que, quando uma aflição não encontra causa evidente na presente existência, a sua origem deve ser procurada em vidas anteriores. A lei de causa e efeito, tal como exposta por Kardec, mostra que nada acontece fora de uma ordem justa: aquilo que hoje recebemos não é punição arbitrária, mas consequência educativa. Assim, alguém que sofre de uma limitação da vista pode estar a reparar o mal que, outrora, fez sofrer a outrem, ou a atravessar uma prova escolhida para acelerar o próprio aperfeiçoamento.   

Longe de nos conduzir ao fatalismo, esta compreensão abre-nos à responsabilidade e à esperança. Se tudo obedece a uma lei de justiça e de amor, então o sofrimento não é um absurdo, nem um castigo sem sentido: é um instrumento de cura espiritual. A dor não é, por si só, santificante; mas, quando é acolhida com humildade, fé e desejo sincero de transformação, torna-se um cadinho onde se purificam o egoísmo, o orgulho e as ilusões que nos prendem à superfície da vida. Como lembram os Espíritos, «nem todos os aflitos são bem-aventurados», mas apenas aqueles que sabem tirar da provação um degrau de ascensão interior.   

No fundo, estes dois textos revelam-nos um Deus que é, ao mesmo tempo, infinitamente justo e infinitamente bom. Justo, porque nada permite sem causa, e porque cada efeito se encadeia numa lei moral que respeita a liberdade e a responsabilidade do Espírito. Bom, porque transforma até as consequências das nossas faltas em oportunidades de regeneração, oferecendo-nos, em cada existência, novos caminhos de reparação, de aprendizagem e de paz.  

Se aceitarmos este olhar, a cegueira—ou qualquer outra limitação—deixa de ser apenas uma tragédia pessoal para se tornar um apelo à visão mais alta. Somos convidados a ver com os olhos da alma: a reconhecer, para além da dor imediata, a presença discreta de Deus, a acção silenciosa dos bons Espíritos, e a possibilidade real de nos tornarmos mais simples, mais humildes, mais fraternos.  

Assim, mesmo nas horas de maior escuridão, quando tudo parece fechado e sem saída, permanece uma certeza: nenhuma lágrima é inútil, nenhum esforço sincero se perde, nenhuma prova é eterna. Se confiarmos, se orarmos com verdade, e se buscarmos, dia após dia, essa visão interior que o Evangelho nos propõe, encontraremos sempre um ponto de luz a guiar-nos—até que, um dia, possamos ver, não já com olhos fechados ao mundo, mas com o coração plenamente aberto a Deus.

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