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O Verniz da Aparência e a Verdade do Coração: Uma Reflexão sobre a Doçura


O Verniz da Aparência e a Verdade do Coração: Uma Reflexão sobre a Doçura

No capítulo IX, item 6, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos uma das mensagens mais incisivas do Espírito Lázaro, recebida em Paris, em 1861. Sob o título «A afabilidade e a doçura», o texto coloca-nos perante uma questão antiga e sempre actual: a distância entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que realmente somos.

A Virtude e o Verniz

Lázaro recorda-nos que a verdadeira afabilidade e a verdadeira doçura são frutos naturais do amor ao próximo. Não são artifícios de convivência, nem técnicas de sedução social; são manifestações espontâneas de uma alma que já encontrou alguma paz.

Contudo, ele adverte-nos para o perigo das aparências. A educação, a etiqueta e a necessidade de convivermos uns com os outros criam, muitas vezes, um verniz de bondade que não corresponde ao estado íntimo do coração. Quantas vezes sorrimos por fora enquanto, por dentro, alimentamos a crítica, a irritação ou a má vontade? Essa bonomia aparente é apenas uma roupagem bem talhada que tenta disfarçar imperfeições profundas.

O Tirano Doméstico

A passagem mais severa desta instrução é a que descreve os chamados «tiranos domésticos». Trata-se de um retrato psicológico de grande precisão: pessoas que, incapazes de exercer autoridade sobre estranhos — que os chamariam à ordem — descarregam o seu orgulho e despotismo sobre aqueles que lhes são próximos, que os amam ou deles dependem.

É o paradoxo de quem é «língua de ouro» na rua e «dardo peçonhento» em casa. Lázaro lembra-nos que o poder sustentado pelo medo é sempre estéril. Quem se vangloria de dizer «Aqui mando eu» esquece que, muitas vezes, o preço desse domínio é ser detestado por aqueles que lhe deviam ser mais queridos.

A Coerência como Caminho

A mensagem de Lázaro é, acima de tudo, um apelo à coerência moral. Aquele que é verdadeiramente manso e pacífico não muda de carácter conforme o cenário. É o mesmo na vida pública e na intimidade do lar, com o desconhecido e com os seus.

«Não basta que dos lábios manem leite e mel. Se o coração de modo algum lhes está associado, só há hipocrisia.»
(Kardec, 1944, p. 137)

Para quem procura sinceramente a verdade, o desafio é transformar a polidez social em caridade autêntica. As aparências podem enganar os homens, mas não enganam a Deus — nem às leis universais que regem a consciência. A verdadeira doçura não é uma máscara que se coloca ao sair de casa; é uma luz interior que permanece acesa, quer haja testemunhas, quer estejamos na mais profunda solidão.


Citação Bibliográfica (Estilo APA)

Kardec, A. (1944). O Evangelho Segundo o Espiritismo (2.ª ed. portuguesa, Guillon Ribeiro, Trad.). Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1864).


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