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A Impossibilidade Técnica da Leitura Mediúnica em Causa Própria: Barreiras Anímicas e Vibratórias


A prática da mediunidade — entendida como o intercâmbio entre o plano físico e o extra‑físico — obedece a leis mecânicas e psíquicas muito precisas. Entre os estudantes desta disciplina, há uma dificuldade que surge sempre, e quase sempre com dor: a incapacidade de realizar leituras fiáveis para aqueles que lhes são mais próximos — cônjuges, filhos, pais.

A explicação para esta limitação não é mística; é técnica. Resulta da impossibilidade de manter verdadeira isenção emocional e da consequente contaminação anímica do processo. O propósito deste texto é expor, com clareza, as razões pelas quais um médium, por mais ostensivo que seja, se torna “cego” ou “espelho de si mesmo” quando tenta ler aqueles que ama.

1. O Princípio da Passividade e o Viés Emocional

A neutralidade do médium é condição essencial para que a comunicação seja autêntica. O médium deve funcionar como um receptor limpo, sem interferências. Porém, diante de um familiar, essa neutralidade é, na prática, impossível — tanto do ponto de vista psicológico como biológico.

O laço afectivo cria um ruído constante. Há sempre um desejo de consolo, de reconciliação, ou, pelo contrário, um medo profundo de receber uma mensagem dolorosa. Esse estado de ansiedade altera a vibração do médium, impede a sintonia com a entidade comunicante e abre espaço para que o subconsciente se intrometa.

Allan Kardec lembra-nos que o estado íntimo do médium influencia directamente a qualidade da comunicação:

“O espírito do médium é o intérprete [...] O espírito do médium não é passivo; é o agente ou o intérprete.” (Kardec, 1861/2004, p. 279)

Se o intérprete está emocionalmente comprometido, a tradução não pode deixar de sair viciada.

2. Distinção Técnica: Animismo e Mistificação

Para compreender por que razão a leitura familiar falha, é necessário distinguir dois fenómenos que produzem resultados falsos, embora por vias diferentes. Nas leituras dirigidas à família, o erro mais frequente é o animismo, ainda que a mistificação também possa ocorrer.

2.1. Animismo — A Projecção do Eu

O termo, amplamente divulgado por Alexander Aksakof, refere‑se à actuação da própria alma do médium. Ao tentar contactar um filho ou um cônjuge, o médium mergulha inadvertidamente nos seus próprios arquivos de memória.

• Como funciona: sob forte pressão emocional, o cérebro do médium resgata uma lembrança, uma frase típica, um desejo reprimido, e projecta‑o como se viesse de fora.  
• A verdade simples: o médium não mente; é enganado por si mesmo. Sente o familiar, mas sente apenas a memória que guarda dele. É um eco, não uma voz.

2.2. Mistificação — A Interferência Externa

Ao contrário do animismo, que é interno, a mistificação envolve inteligências exteriores. A insistência ansiosa em contactar um familiar desencarnado atrai, com frequência, entidades levianas que se aproveitam da vulnerabilidade emocional.

• O risco: estas entidades captam os pensamentos do médium — que está concentrado no familiar — e usam essa informação para imitar a identidade do parente. Muitas vezes, fazem‑no para se alimentarem da emoção ou simplesmente para perturbar.

Léon Denis é claro quanto à necessidade de desprendimento para evitar confusões:

“As preocupações materiais, as paixões, a ansiedade, perturbam os fluidos e tornam a transmissão confusa [...]” (Denis, 1908/1987, p. 76)

Ora, esse desprendimento é praticamente impossível quando a dor da perda está viva.

3. A Metáfora do Cirurgião

A mediunidade aplicada à própria família pode ser comparada à cirurgia. Um cirurgião experiente é capaz de operar qualquer pessoa — excepto os seus próprios filhos. Não lhe falta técnica; falta‑lhe a frieza necessária. A mão treme, não por incompetência, mas por amor. No momento decisivo, o medo sobrepõe‑se ao saber.

Na mediunidade, esse “tremor” traduz‑se numa vibração descontrolada que corta a ligação com o mentor espiritual e abre espaço à fantasia anímica.

Conclusão

Tentar realizar leituras mediúnicas para familiares directos é, na maioria dos casos, um exercício de auto‑ilusão. A mecânica dos fluidos exige uma neutralidade que o amor humano, pela sua própria natureza, inviabiliza.

Por razões éticas e técnicas, a solução mais segura é recorrer a um terceiro — um médium que não conheça a família, que não esteja emocionalmente envolvido e que possa servir de superfície neutra para a mensagem, sem a interferência dos medos e desejos de quem ficou.

Referências Bibliográficas
 • Denis, L. (1987). No Invisível: Espiritismo e Mediunidade (L. C. de Oliveira, Trad.). Rio de Janeiro, Brasil: Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1908).
 • Kardec, A. (2004). O Livro dos Médiuns (Guillon Ribeiro, Trad.; 73.ª ed.) Cap. XIX, Item 223, perguntas 6 e 11. Brasília, Brasil: Federação Espírita Brasileira. (Obra original publicada em 1861).

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