Há uma certa hora do Inverno da alma em que tudo parece parar — a respiração fica rasa, o horizonte some, e o mundo se recolhe num silêncio espesso. É quando o desalento pousa, suave e pesado como neve sobre os galhos, e a vontade de caminhar parece esvaír-se no próprio ar que falta. Nesses instantes de frio interior, somos convocados a recordar: a vida não é acidente. Nem o sofrimento é um castigo cego. Cada obstáculo é uma espécie de porta estreita, fechada a ferro, que guarda dentro de si não a rejeição, mas a revelação — uma chance única de amadurecer, de reparar o invisível, de descobrir paisagens internas que só nascem depois da tempestade. Mas atenção: há ventos, às vezes, que sopram contra. Há vozes interiores e ecos alheios que insistem em pintar a existência como um fardo sem réstia de sentido, como se o amor, a fé e a descoberta fossem miragens de uma mente cansada. Essas forças não vêm em nome da verdade; são sombras que se alimentam da escuridão alheia. Prolongam a dor com...
A magia sempre foi mais do que superstição ou truque de salão. No estudo A Trama da Vontade, José Nunes mostra como a dicotomia entre “Magia Branca” e “Magia Negra” não é uma verdade ontológica, mas sim uma construção social e política. Desde a Antiguidade, com a separação entre Teurgia e Goécia, até às religiões sincréticas afro-diaspóricas, a magia revela-se como uma tecnologia da consciência e da vontade, capaz de transformar realidades sem depender de dogmas. O texto percorre Frazer, Durkheim, Mauss, Crowley e Styers para demonstrar que a magia é um espelho da sociedade: aquilo que é aceito torna-se “milagre”, o que ameaça o poder dominante é rotulado de “feitiçaria”. No mundo contemporâneo, o marketing, a política e até os algoritmos digitais continuam a operar como formas de encantamento, manipulando atenção e desejo. Mais do que uma prática marginal, a magia persiste como substrato da consciência humana — uma linguagem simbólica que atravessa culturas e épocas. Reconhecer ...