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A Anatomia da Ilusão: O Argueiro, a Trave e as Armadilhas do Ego

Reflectindo intimamente sobre a magistral passagem do argueiro e da trave, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (Kardec, 1864/2021), torna-se inegável que não estamos perante uma mera lição de moralidade branda ou um conselho de etiqueta espiritual. Jesus, e posteriormente a análise incisiva de Allan Kardec, aplicam um autêntico bisturi naquilo que é a nossa condição humana mais crua e, não raras vezes, mais desconfortável. Trata-se de uma dissecação cirúrgica e implacável da nossa própria psique.

Quando lemos a advertência sobre a facilidade com que detectamos o argueiro no olho do irmão, ignorando a trave que cega o nosso, a verdade, sem filtros nem complacências, é que o Evangelho antecipou em séculos um dos diagnósticos mais profundos do comportamento humano: aquilo que a psicologia veio a baptizar de 'projecção'. Na arquitectura da nossa mente, desenvolvemos um mecanismo de defesa terrível, um instinto cego de sobrevivência do nosso ego. Nós projectamos no outro as sombras, os impulsos e as falhas morais que não temos a envergadura nem a coragem de admitir em nós mesmos. Como a psicologia analítica de Carl Jung mais tarde demonstraria ao conceptualizar a "Sombra" (Jung, 1951/1984), é a nossa recusa peremptória em reconhecer o nosso lado obscuro que nos obriga a projectá-lo nos demais. O argueiro do nosso irmão incomoda-nos de forma tão visceral precisamente porque ele ressoa, em surdina, com a trave que nós próprios carregamos. É imensamente mais confortável assumirmos a tribuna de juízes implacáveis do comportamento alheio do que a cadeira de espectadores honestos das nossas próprias misérias.

Kardec toca no nervo central desta patologia íntima quando afirma: «é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos» (Kardec, 1864/2021, p. 205). E aqui, exige-se uma frontalidade absoluta: nós mentimos a nós mesmos com uma frequência assustadora. O nosso orgulho cria uma cegueira voluntária, uma anestesia que nos protege do choque da autocrítica. O exercício que nos é proposto no texto — o de nos transportarmos para fora de nós mesmos, como se nos observássemos num espelho nítido, e escrutinarmos as nossas próprias acções com a mesma frieza com que avaliamos os outros — é de uma dificuldade atroz. Exige um nível de maturidade e uma coragem para suportar a dor da autoconsciência que a esmagadora maioria de nós ainda prefere evitar a todo o custo.

Contudo, a vertente que exige a nossa reflexão mais madura, e que nos deve fazer parar num silêncio profundo, é o conceito de 'caridade orgulhosa'. Kardec classifica-a como um verdadeiro contra-senso; eu diria que é a hipocrisia na sua forma mais sofisticada. Quantas vezes não fazemos o bem, não apontamos o caminho «certo», ou até não nos oferecemos, cheios de zelo, para tirar o argueiro do olho do outro, mas fazemo-lo a partir de um pedestal ilusório? Quantas vezes a nossa pretensa ajuda esconde uma sensação íntima, silenciosa e narcísica de superioridade moral? Se a nossa 'ajuda' serve, no fundo da nossa consciência, para nos exaltar, para validarmos a crença de que somos mais evoluídos, mais lúcidos ou mais capazes do que o outro, então não estamos a praticar qualquer tipo de caridade. Estamos apenas a alimentar o nosso orgulho, habilmente travestido e mascarado de virtude e altruísmo. É o ego a usar a capa da espiritualidade.

A verdadeira caridade, recorda-nos o texto, é modesta, simples e indulgente. E essa indulgência tem de começar, imperativamente, pela forma adulta como olhamos para a nossa própria 'trave'. Não para nos desculparmos, não para cairmos na autocomiseração ou sermos complacentes com o nosso erro, mas para assumirmos a responsabilidade inalienável de a extirpar. O trabalho principal, o único campo de acção sobre o qual temos real e total controlo, não está no outro; está, irremediavelmente, em nós. A verdadeira reforma íntima não é um espectáculo. É um processo profundamente solitário, que não tem palco, não tem público, nem procura aplausos. É um confronto silencioso, muitas vezes cruel e doloroso, com a nossa própria verdade nua e crua.


Referências Bibliográficas:

  • Jung, C. G. (1984). Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (Tradução adaptada). Editora Vozes. (Obra original publicada em 1951).

  • Kardec, A. (2021). O Evangelho Segundo o Espiritismo (Tradução adaptada). Editora Verdade e Luz. (Obra original publicada em 1864).


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