Ao debruçar-me com rigor sobre esta passagem específica de O Livro dos Médiuns (Kardec, 1861/2013), a minha primeira reflexão é a de que Allan Kardec nos dá aqui, com toda a frontalidade e sem qualquer anestesia, uma autêntica bofetada de luva branca. E fá-lo precisamente na nossa tendência — tão intrinsecamente humana, tão intelectualmente frágil e tão tentadora — para o misticismo fácil, para o pensamento mágico e para a superstição.
Reparemos na frieza analítica com que o texto nos aborda. Convém nunca esquecer que Kardec, antes de assumir o papel de codificador do Espiritismo, era o Professor Rivail, um homem de ciência, um metodologista e um educador rigoroso formado na escola de Pestalozzi. Quando um fenómeno insólito acontece, seja um ruído inexplicável ou um objecto que cai sem razão aparente, qual é a directriz primária que ele nos dá? Ele não nos manda rezar, não nos aconselha a acender mechas, nem nos manda procurar imediatamente um espírito para justificar o evento. Ele aplica o princípio filosófico da Navalha de Ockham muito antes de este ser popular na pesquisa paranormal, dizendo-nos de forma categórica: a primeira ideia deve ser sempre, e inequivocamente, a de procurar uma causa inteiramente natural. A explicação mais simples e física é, na esmagadora maioria das vezes, a verdadeira.
Sejamos intelectual e moralmente honestos connosco próprios: quantas vezes, nos meios espíritas e terapêuticos, nós esquecemos, ou pior, ignoramos deliberadamente esta regra de ouro? Quantas vezes a vontade cega de acreditar, ou a necessidade premente de encontrar explicações mágicas para o caos da nossa vida, nos faz desligar o sentido crítico? A verdade, nua e crua, por muito que fira o nosso ego, é que é infinitamente mais fácil e confortável culpar um 'espírito zombeteiro' ou uma 'carga negativa' por um copo partido ou por um ambiente pesado em casa, do que admitir a nossa própria neurose, o nosso desmazelo, a nossa instabilidade emocional ou a simples e inflexível lei física da gravidade. Usamos o "espiritual" como um bode expiatório para a nossa irresponsabilidade terrena. Kardec é implacável com esta ilusão. Ele exige que sejamos investigadores criteriosos, frios, e que não admitamos a intervenção espiritual a não ser, e cito, «muito cientemente» — com provas dadas e conhecimento de causa.
O segundo ponto que considero de um fascínio absoluto nesta passagem é a completa e radical desmistificação do conceito de 'sobrenatural'. O Espiritismo não reconhece o sobrenatural; reconhece leis naturais ainda não mapeadas pela nossa ciência materialista. A manifestação física não é magia, não é bruxaria nem milagre; é mecânica e física de fluidos. O espírito desencarnado não actua no vazio nem quebra as leis da física. Ele precisa de matéria, do chamado fluido animalizado, e frequentemente vai buscá-lo à nossa revelia. Esta noção dos 'médiuns naturais' — pessoas que funcionam como dínamos, doando energia e vitalidade sem sequer terem consciência disso — é de uma profundidade clínica imensa. Mostra-nos que estamos constantemente mergulhados numa ecologia energética, interligados numa teia de acção e reacção, onde a nossa fisiologia e o nosso psiquismo alimentam fenómenos à nossa volta.
Por fim, o texto remata com a magna questão dos limites. O mundo invisível não é uma anarquia. Os espíritos não andam à solta a fazer o que lhes apetece, à mercê dos seus caprichos. Há leis de atracção rigorosas, há permissões morais, há objectivos teleológicos (um propósito maior) e há uma vontade superior que rege toda esta fenomenologia.
O que retiro destas linhas, e o que vos proponho como uma reflexão íntima e desconfortável, é que o Espiritismo não é, de todo, um convite à fantasia. É, pelo contrário, um apelo severo e adulto à razão e à maturidade psicológica. A verdadeira compreensão espiritual não teme a dúvida metódica nem a investigação implacável; ela exige-a. Se queremos levar este estudo a sério e sermos úteis, temos de ser os nossos primeiros e mais duros críticos, limpando a lente da nossa percepção de qualquer poeira de superstição, antes de termos a ousadia de afirmar que estamos perante um facto mediúnico.
Referência Bibliográfica:
Kardec, A. (2013). O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores (Tradução adaptada). Edição Verdade e Luz. (Obra original publicada em 1861).

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